Chegados ao último dia de BONS SONS, já se começava a sentir no ar o cheiro a uma despedida difícil de Cem Soldos. Não há volta a dar, esta aldeia é especial e isso sente-se um pouco por todos os cantos, dos grupos que se juntam nas esplanadas a tocar e a cantar, às pessoas que assistem aos concertos a partir da sua janela de casa, passando por miúdos e graúdos a jogar aos Jogos do Hélder ou simplesmente a relaxar em frente ao palco Lopes-Graça. A aldeia é uma festa e viver a aldeia é isto: fazer parte da vida dela durante estes dias, mas, sobretudo, viver tudo o que ela nos tem para oferecer: ver os burros no curral, os concertos no palco garagem, as bancas de artesanato nas ruas alternativas, onde também podemos ver janelas forradas com fotografias da autoria de Adriana Boiça-Silva de edições de BONS SONS anteriores, ou admirar as janelas típicas e as letras de músicas espalhadas pelas paredes e pelas casas um pouco por toda a aldeia.
Este dia, musicalmente falando, começou com o concerto do projecto Vozes Tradicionais Femininas, no palco MPAGDP, seguido de Ricardo Leitão Pedro no palco Carlos Paredes, e Galo Cant’às Duas a abrir o Giacometti-Inatel.
De seguida, foi a vez de Telma subir ao MPAGDP. Num palco que teve vários momentos especiais ao longo destes quatro dias, o último concerto não podia ser diferente.
Telma foi aquilo que um artista deve ser, principalmente um que celebra a música portuguesa e as nossas raízes. Houve uma homenagem a António Variações, houve várias partilhas de histórias e houve uma artista a partilhar de forma honesta e transparente com o público todas as emoções e sentimentos que as músicas dela carregam. E, no fundo, é disso que é feito não só este palco, mas todo o BONS SONS: de emoções e de partilha.
Telma
De repente e sem aviso uma onda de loucura e caos atingiu o BONS SONS. Pedro Mafama chegou como um furacão, rápido e em força. Abriu com um dos seus cartões de visita, ‘Jazigo’, e nunca mais abrandou o ritmo. A superviciante ‘Lacrau’ (que já vinha sabido e ensaiado por muito do público presente) foi mais um dos pontos altos de um concerto que se encheu de gente curiosa, que não sabia bem como explicar a música de Mafama, mas que nem por isso parou de dançar nem por um segundo.
Pedro Mafama
Aproximando-se o final da tarde, pelas 18h15, o palco Zeca Afonso recebeu uma colaboração improvável das Sopa de Pedra com Joana Gama. Para o seu regresso ao festival, a dupla de repetentes preparou um concerto especial inspirado nas canções tradicionais e no ciclo de peças para piano “Viagens na Minha Terra” de Fernando Lopes-Graça. “O figo que prometeste”, nome que deram a este espectáculo, foi executado de forma exímia por todas as artistas, percorrendo desde fandangos a toadas, e juntando-lhes pequenos momentos que roçavam a dança contemporânea por parte de uma das integrantes das Sopa de Pedra.
A segunda parte do concerto foi principalmente dedicada a peças ligadas ao fabrico do linho, várias das quais foram editadas no disco “Ao Longe Já Se Ouvia” das Sopa de Pedra, como ‘Estrigadeiras do Meu Linho’, ‘Bate, Bate’ ou ‘Maçadeiras do Meu Linho’. Pelo meio, houve ainda tempo para todo o auditório natural do palco Zeca Afonso expressar o seu apreço pela fantástica prestação das artistas com diversas ondas de braços humanos. O concerto terminou com uma versão da ‘Senhora da Póvoa’, tema popularizado pelas adufeiras de Monsanto. O único ponto negativo foi ter sabido a pouco: ainda sobrou muito por explorar na temática que a dupla programou para este concerto especial.
Sopa de Pedra + Joana Gama
O fim de tarde decorreu ao som de jazz no palco Amália, com a banda sonora de Ricardo Toscano e João Paulo Esteves da Silva.
Luísa Sobral fechou a programação do palco Zeca Afonso da edição de 2019 do BONS SONS. Eram 20h45 quando a cantautora subiu ao palco acompanhada pelo guitarrista Manuel Rocha e por um trio de sopros composto por trompa, fliscorne e tuba (Ângelo Caleiro, Sérgio Charrinho e Gil Gonçalves, respectivamente). A cantora veio até Cem Soldos apresentar o seu disco mais recente e mais intimista, “Rosa”, o seu primeiro registo para adultos totalmente em Português.
Com excepção de um pequeno desvio ao inglês com um tema não editado – chama-lhe ‘Blues do Gil’ carinhosamente em honra ao seu tocador de tuba – todo o espectáculo seguiu na língua portuguesa, visitando ‘Cupido’ do seu álbum anterior e ‘O Engraxador’ do seu primeiro disco. Entre canções, Luísa foi conversando com o público, partilhando episódios da sua vida que deram origem aos temas que esta apresentou; estas partilhas não são forçadas e criaram um sentimento de empatia enorme entre a compositora e o público, fazendo-nos sentir como que na sala de estar de Luísa, numa noite entre amigos de longa data. ‘Para Ti’, um tema que a cantora escreveu para o seu filho durante a gravidez, foi provavelmente o momento mais emotivo do concerto, havendo mesmo pessoas a chorar durante a sua interpretação. De “Rosa”, destacaram-se ainda as apresentações cuidadosas e sentimentais de ‘Maria do Mar’ e ‘Dois Namorados’.
Entre confissões de que tinha saudades dos seus músicos por estar de férias há uma semana e de mais histórias que colocavam sorrisos na cara de todos, o tempo de antena de Luísa chegou ao fim, tendo terminado com uma divertida interpretação de ‘Xico’ que colocou todo o público a dançar e a ansiar por mais.
Luísa Sobral
Às 22h00, Júlio Pereira, o seu cavaquinho e a sua banda subiam ao palco Lopes-Graça, e traziam a esta noite uma sonoridade tradicional portuguesa.
Chegou a altura de visitar o palco António Variações pela primeira vez neste dia, para assistir ao concerto de Tape Junk. João Correia não é estranho ao BONS SONS. Segundo o próprio, esta é a quinta vez que actua na aldeia, mas esta foi a primeira vez que o fez com o projecto Tape Junk. Assim que entrou em palco, apresentou os seus amigos: Frankie Chavez na guitarra, António Vasconcelos Dias na bateria, Nuno Lucas no baixo e ainda Benjamim nas teclas (também nos bongós e na pandeireta). Na realidade, a palavra amigos fez todo o sentido para quem assistia ao concerto: a sensação foi de sermos convidados para um encontro entre velhos conhecidos que estiveram em palco a divertir-se e a ter verdadeiro prazer em estar ali. E quando é assim, pelo menos no BONS SONS, pelo que nos diz a experiência neste festival, o público responde na mesma moeda: aqui, amor com amor se paga. A interação entre banda e público foi de tal forma intensa que João Correia declarou «Sinto-me como a Uma Thurman quando leva a injecção no Pulp Fiction». O público gritou por Tony Love (António Vasconcelos Dias) em tom de hino de futebol, não fosse este o jogador com mais minutos de jogo em Cem Soldos, mas também por Nuno Lucas e seu avô, centenário neste dia, com direito a dedicatória. Vibrou com os solos de Chavez e respondeu ao apelo por aplausos do pandeireta mais feliz da pop rock portuguesa, Benjamim. Aplaudiu e puxou por João Correia, até quando a corda da sua guitarra se partiu e este teve de mudar durante ‘Hard Time Blues’.
A banda percorreu as músicas do seu mais recente álbum “Couch Pop” (uma das únicas excepções foi ‘Cranberry and Thyme’, da qual sentimos falta) mas também passou por alguns sons do álbum anterior, homónimo: ‘Six String and the Booze’ e ‘Thumb Sucking Generation’ meteram o público do palco António Variações a dançar e a cantar as malhas de guitarra. No final, o vocalista declarou «valeu a pena fazer a banda só pelo concerto de hoje».
Tape Junk
Assim que terminou o concerto de Tape Junk, já se ouvia a cidade (neste caso, a aldeia) de Dino d’Santiago a chamar por nós para aquecer a noite fria que se sentia.
O concerto começou logo em modo triple threat: ‘Nova Lisboa’, ‘Raboita de Santa Catarina’ e ‘Tudo Certo’ inauguraram o concerto e abriram as hostes dançantes, e o público aderiu em massa. Com Dino, já sabíamos, o difícil é ficar parado. Quando chegou a altura de ‘Sô Bô’ e Dino referiu Pedro Mafama, que estava no público, muitos ansiaram por uma versão ao vivo da remistura para o EP “Mundo Nobu Remix”, mas tal não aconteceu.
Em todo o concerto, o cantor deu corpo à expressão que traz muitas vezes ao peito “Funaná is the new (…)”, juntando, graças à roupagem que trouxe ao funaná, vários públicos muito diferentes entre si em torno de um género musical que vai ganhando uma universalidade e uma unanimidade que não eram até agora tão usual associarmos aos estilos musicais africanos. “Atravessamos uma das melhores fases da humanidade: todos misturados”, disse o cantor ao verificar a transversalidade do seu público. Como já vem sendo habitual nos seus concertos, Dino desceu até perto do público e aí terminou a sua actuação, com direito a uma adaptação de ‘Sodade’ de Cesária Évora, concluindo com um verso adaptado a si mesmo “Des nha terra, Portugal”.
Dino d’Santiago
A noite cerrada do último dia do Bons Sons encheu-se de loops de guitarra e sintetizador com o ambiente experimental e lento dos Sensible Soccers a fecharem o palco António Variações. Ao mesmo tempo que chegava a banda nortenha, também Tiago Sami Pereira entrava em palco para mostrar a sua exímia habilidade no bombo, acompanhando a percussão sem lei que por lá se tocava. Já se sabia que os Sensible Soccers eram muito queridos entre o público de Cem Soldos e a história que se contou em 2016, naquele mesmo palco, repetiu-se. Com “Aurora” agora no repertório, o ambiente de festa alternava entre os riffs metódicos e os melodiosos teclados, numa envolvente intensa, quebrada apenas pelo bombo de Tiago. Todos queriam mais e eis que, quase ao fechar o concerto, o público foi surpreendido por um dançarino que deslizava pelo palco em redor da banda, ao qual Tiago Sami Pereira se juntou, deixando de lado o bombo. Para fechar, foi o bombo a marcar passo numa intensa fusão à banda, construída para deixar o público a pedir por mais.
Sensible Soccers + Tiago Sami Pereira
Coube a Moullinex a honra de encerrar a edição de 2019 do BONS SONS. E numa edição especial em que o festival estava de parabéns a responsabilidade cresceu, e ele, um dos nomes mais falados por Cem Soldos, esteve completamente à altura.
A aldeia transformou-se numa pista de dança graças ao DJ, produtor e multi-instrumentista, que subiu a palco acompanhado da sua banda com convidados a tocar instrumentos típicos portugueses como o cavaquinho, o acordeão e a flauta, e Ghetthoven a assumir o palco Aguardela. A mistura de luzes e imagem agarraram uma praça que ainda estava cheia de gente com vontade para dançar.
O espectáculo foi preparado especialmente para o festival, como se pode observar pela presença no alinhamento de músicas tradicionais portuguesas remisturadas, para além de alguns clássicos do DJ, como ‘Love, Love, Love’. A entrada de Dino d’Santiago para uma versão diferente de ‘Nova Lisboa’ fez subir ainda mais a intensidade, num concerto que acabou em apoteose com a incrível ‘Take My Pain Away’. Luís Clara Gomes reforçou várias vezes durante a actuação o quão feliz estava de voltar a Cem Soldos (esteve na edição do BONS SONS de 2014) e, quando chegou ao fim o seu show com banda, declarou que ia fazer DJ Set “até o expulsarem do palco”.
Moullinex
Fotos de: Sónia Véstias
Texto de: Joana Rodrigues, Gil Marques, Mikael Gonçalves e Luís Lisboa































































































































