Palco Olaria. Fotografia de Vera Marmelo.

ZigurFest – dias três e quatro

Os dois últimos dias de ZigurFest chegaram para nos convencer que este é um dos festivais mais importantes do país

Chegámos a Lamego a tempo do arranque do terceiro e penúltimo dia de ZigurFest. O festival que se empenha há nove anos a construir não só um cartaz recheado de nomes emergentes (que nunca se repetem) mas também um percurso pela sua cidade já tinha recebido Jasmim, Dada Garbek ou Violeta Azevedo nos dias anteriores, mas ainda prometia grandes momentos.

Subimos ao Horto do Castelo para observar como os ritmos africanos de Djumbai Djazz e os beats minuciosos de Minus & Mr Dolly se enquadram perfeitamente no cenário incrível que os rodeia, e como o público do ZigurFest – que é um festival totalmente gratuito – vai dos mais velhos aos mais novos e até aos de quatro patas, dos que se sentam na encosta a beber um fino aos que correm de um lado para o outro ou aos que fazem questão de se levantar e ir fazer a festa bem perto dos músicos. No dia seguinte, já dentro do Castelo e pela noite, iríamos receber a sensibilidade de Ivy, as viagens em spoken word de Krake + Adolfo Luxúria Canibal e aquele que acabou por ser um dos momentos mais marcantes do festival: Mynda Guevara e o seu rap crioulo debitado com a confiança de quem vem reivindicar o seu espaço. Vinda da Cova da Moura, soube comunicar com um público que à partida lhe seria distante enquanto a plateia que estava do outro lado soube mostrar-lhe que, afinal, estava em casa.

No belo Teatro Ribeiro Conceição, vimos o colectivo Terebentina misturar o jazz, o experimental e o punk com alguma desconexão mas ainda assim a pôr uma boa parte dos presentes a mexer. Depois, veríamos a sala encher completamente para receber Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo para um concerto sem falhas, que passou tanto pelo aclamado homónimo do ano passado como por “Vida Salgada” (2016) e até pelo EP “Ups… Fiz Isto Outra Vez” (2014).

Terá sido na Rua da Olaria onde mais sentimos o verdadeiro espírito do ZigurFest. Uma ruela repleta de bares e barracas de cerveja a cada canto, um largo pequeníssimo para um palco e tanta gente, velhinhos à janela e um ambiente extremamente acolhedor. Na primeira noite, tanto o pós-punk electro hipnotizante de 3I3O como o punk de mensagem apurada de Algumacena foram recebidos com entusiasmo generalizado. Na tarde seguinte, já com povo sentado e um olho no palco e outro na televisão da tasca (a bola, sempre a bola), foi o rock em português de Tiago e os Tintos e de Daniel Catarino a ecoar rua adentro.

Fechámos a visita a Lamego na Alameda, de onde se vê ao fundo o iluminado Santuário de Nossa Sr.ª dos Remédios. Primeiro com um dos melhores discos do ano que passou, “Plástico”, de uma das melhores bandas que por cá temos, Glockenwise. Depois com aquele que poderá bem ser uma das maiores revelações dos ano que aí vem: Chinaskee

Saímos do ZigurFest com a sensação de que se fôssemos todos um bocadinho mais Lamego estaríamos bem melhor. Um local que se sabe envolver com a música que o habita durante quatro dias, música essa que é programada não à procura de cliques, plays e likes mas sim de novidade, coragem e qualidade. E, mais uma vez, um grupo de jovens numa cidade do interior a lutar por tudo aquilo que fica sempre à margem. Lutemos com eles.

Texto de Teresa Colaço
Fotografias de José Caldeira e Vera Marmelo